Pesquisadores da Universidade de Oulu, na Finlândia, encontraram evidências de que microrganismos presentes em agulhas de abeto-norueguês conseguem transformar ouro solúvel do solo em nanopartículas metálicas. O achado, obtido a partir de amostras coletadas nas proximidades da mina de Kittilä, a maior da Europa, abre caminho para métodos de prospecção menos invasivos e mais precisos.


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A descoberta: ouro invisível nas folhas
O estudo analisou 138 amostras de agulhas retiradas de 23 árvores localizadas na Lapônia, região norte do país. Segundo o relatório, apenas quatro desses abetos apresentavam nanopartículas de ouro, todas circundadas por biofilmes bacterianos. O sequenciamento de DNA dos microrganismos revelou predominância de três grupos: P3OB-42, Cutibacterium e Corynebacterium.
De acordo com os cientistas, esses micróbios desempenham papel crucial no processo conhecido como biomineralização. Nele, íons metálicos dissolvidos na água se deslocam pelo solo até alcançarem raízes e caules. Dentro da planta, as bactérias convertem o ouro solúvel em partículas sólidas com poucos nanômetros de diâmetro, suficientemente grandes para serem detectadas em análises de laboratório.
Embora a quantidade de metal por árvore seja microscópica, a presença do elemento serve como indicador geológico. Em contexto de exploração mineral, identificar folhas que concentram ouro pode direcionar perfurações a depósitos subterrâneos mais promissores e reduzir custos de pesquisa.
Contexto geológico e potencial econômico
A mina de Kittilä, próxima ao local do estudo, possui reservas estimadas em mais de 4 milhões de onças de ouro e opera desde 2009. A proximidade sugere que o metal transportado pela água subterrânea chega às raízes dos abetos da região. Especialistas apontam que fenótipos específicos das árvores e a composição microbiana de cada planta explicam por que somente algumas delas acumulam ouro nas agulhas.
Casos semelhantes já foram registrados na Austrália, onde raízes de eucaliptos alcançam camadas profundas, trazendo traços de ouro para a superfície. Em 2019, a empresa de exploração Marmota localizou uma veia com 3,4 gramas de ouro por tonelada após analisar pequenas folhas coletadas acima de um depósito. O método, conhecido como prospecção biogeoquímica, evita o uso de perfurações exploratórias extensas e pode minimizar impactos ambientais.
Relatórios do setor minerário indicam que os custos iniciais de prospecção correspondem, em média, a 30 % do investimento total de um projeto. Técnicas baseadas em plantas e microrganismos prometem reduzir esse percentual ao restringir as áreas examinadas in loco. Para regiões sensíveis, como áreas de floresta boreal ou reservas indígenas, abordar a busca por metais de forma menos invasiva é visto como avanço estratégico.
Como as bactérias precipitam o metal
No solo, o ouro costuma existir em forma de complexos dissolvidos, transportados pela água e pela oxidação natural de rochas. Quando a solução alcança o sistema vascular da árvore, entra em contato com comunidades bacterianas que colonizam a superfície interna dos tecidos vegetais. Os micróbios modificam o ambiente químico, alterando pH e potencial redox, fatores que levam à precipitação do metal em estado elementar.
Segundo os autores da pesquisa, a presença consistente das bactérias Cutibacterium e Corynebacterium sugere que ambas atuam como catalisadoras do processo. Além disso, o grupo P3OB-42, ainda pouco caracterizado, pode auxiliar na formação de estruturas cristalinas estáveis. Entender essa interação microbiana é fundamental para replicar o mecanismo em laboratório ou em cultivos controlados, perspectiva que desperta interesse na indústria de biotecnologia aplicada à mineração.

Imagem: TSVi
Impacto ambiental e próximos passos
Empresas de mineração buscam constantemente reduzir impactos ecológicos e melhorar sua licença social para operar. Métodos de prospecção baseados em biomarcadores podem dispensar a remoção de grandes volumes de solo, diminuir o uso de reagentes químicos e limitar a abertura de vias de acesso em áreas preservadas.
Os pesquisadores planejam expandir o estudo para outras regiões da Lapônia e comparar populações bacterianas em solos com diferentes concentrações de ouro. Também pretendem investigar se é possível usar análise genética rápida de folhas, ainda no campo, para sinalizar a presença do metal. Caso a técnica se torne comercialmente viável, exploradores poderão priorizar pontos exatos para sondagens profundas, acelerando a fase de avaliação de reservas.
Para o leitor, essa inovação pode refletir em maior eficiência na cadeia de abastecimento de metais valiosos, potencialmente reduzindo custos de produção de dispositivos eletrônicos que dependem do ouro como condutor. Além disso, práticas menos agressivas ao meio ambiente tendem a atender exigências regulatórias cada vez mais rígidas.
Curiosidade
O termo “ouro vegetal” foi cunhado na década de 1980, quando geólogos descobriram partículas do metal em samambaias da Nova Zelândia. Desde então, mais de 20 espécies vegetais já foram catalogadas com capacidade de acumular ouro, mas o abeto-norueguês é o primeiro registrado em clima subártico. A diversidade de plantas “detetives” amplia as possibilidades de prospecção em diferentes biomas.
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