DNA em vala comum confirma Yersinia pestis na Peste de Justiniano

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Pesquisadores identificaram material genético da bactéria Yersinia pestis em vítimas da Peste de Justiniano, surto que começou em 541 d.C. e é frequentemente apontado como a primeira pandemia registrada. A descoberta foi possível após a análise de dentes humanos retirados de um antigo hipódromo convertido em vala comum na atual Jerash, norte da Jordânia.

Escavação inédita em Jerash

A equipe internacional investigou câmaras funerárias localizadas sob as arquibancadas do hipódromo, usadas como sepultura coletiva entre os séculos VI e VII. O local fica a cerca de 322 quilômetros do porto de Pelúsio, Egito, onde relatos históricos situam os primeiros casos da doença no Império Bizantino. Dos restos mortais examinados, oito dentes apresentaram DNA bem preservado, permitindo a recuperação e o sequenciamento completo do patógeno.

Os resultados mostraram que todas as vítimas carregavam cepas quase idênticas de Y. pestis, o que indica um surto rápido e letal. Até então, nenhuma evidência biológica da bactéria havia sido encontrada tão perto do epicentro original da epidemia. Segundo os cientistas, o hipódromo — antes destinado a eventos públicos — foi transformado em cemitério de emergência devido ao volume de mortos em um curto intervalo.

Confirmação genética da pandemia

Os achados respondem a uma questão discutida há décadas: qual agente causou a Peste de Justiniano? Narrativas da época descreviam sintomas compatíveis com peste bubônica, mas a prova direta faltava. A detecção do DNA bacteriano fornece a ligação definitiva entre o surto e a Yersinia pestis, a mesma responsável pelas grandes epidemias de peste na Idade Média.

Em trabalho complementar, o genoma obtido foi comparado a outras amostras antigas e modernas da bactéria. A análise mostrou que linhagens capazes de gerar pandemias surgiram de forma independente em diferentes períodos históricos, em vez de derivar de um único ancestral. Para os autores, o padrão sugere reservatórios regionais complexos, com eventuais transmissões ao ser humano ao longo dos milênios.

Implicações para a saúde atual

Embora a peste hoje seja tratável com antibióticos, casos continuam ocorrendo em vários continentes. Os pesquisadores destacam que a compreensão da evolução histórica da bactéria pode auxiliar no monitoramento de surtos contemporâneos e na formulação de estratégias de vigilância. Estudos futuros incluirão o exame de restos mortais em Lazzaretto Vecchio, ilha próxima a Veneza usada como quarentena durante epidemias posteriores.

Para quem se interessa por avanços científicos que resgatam a história através da genética, há matérias complementares em https://remansonoticias.com.br/category/tecnologia.

Os pesquisadores ressaltam que, assim como ocorreu no século VI, novas variantes de patógenos podem emergir e se dispersar rapidamente. A descoberta em Jerash reforça a importância de manter redes de vigilância epidemiológica e de investir em técnicas de sequenciamento que detectem agentes infecciosos diretamente em amostras humanas antigas ou recentes.

Este estudo fornece a peça que faltava ao quebra-cabeça da Peste de Justiniano, combinando arqueologia, história e biologia molecular para elucidar um evento que pode ter causado entre 30 e 50 milhões de mortes. Mesmo após quinze séculos, a investigação de pandemias passadas continua a oferecer lições valiosas para a saúde pública contemporânea.

Curiosidade

Apenas uma fração das valas comuns associadas à Peste de Justiniano foi escavada até hoje. Especialistas estimam que muitas sepulturas coletivas permanecem sob áreas urbanas modernas, aguardando estudos que podem revelar novos detalhes sobre a propagação da doença.

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